Os cínicos não servem para esta profissão: sobre o bom jornalismo

Por Ryszard Kapuściński, via Guao, traduzido por Beatriz Aguiar

A obra “Los cínicos no sirven para este oficio: Sobre el buen periodismo” (2002) é uma coletânea de diferentes participações do jornalista literário Ryszard Kapuściński em congressos. O seguinte texto faz parte da entrevista cedida no dia 27 de novembro de 1999 no evento “De raça e de classe. O jornalismo entre o desejo de elitismo, envolvimento e indiferença”, organizado pelo Comitê Nacional de Comunidades de Acogida (CNCA), na Itália.

Na ocasião, Kapuściński havia recém-lançado o livro de memórias “Ébano” (1998), sobre suas passagens em países do continente africano, como Nigéria, Quênia, Ruanda e Etiópia.

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Maria Nadotti: Sua obra mais recente, Ébano, é a fotografia de uma África vista de dentro e de baixo, uma tentativa exitosa de observação participativa e, à sua maneira, militante, das milhares de vidas de um continente que, para nós, segue sendo nada mais que um imenso buraco negro no mapa do mundo. Por isso, gostaria de convidá-lo a começar justamente pelos relatos e pelas motivações de uma atividade jornalística marcada por uma opção ética muito forte e pela necessidade do risco, da experiência direta e da compenetração.

Ryszard Kapuściński: Antes de mais nada, gostaria de expressar minha grande alegria de estar aqui. Não é a primeira vez que participo de um evento jornalístico na Itália e tenho boas lembranças destes encontros. Em segundo lugar, queria dizer que estou contente de ver tantos jovens. Nossa profissão precisa de novas forças, novos pontos de vista, novas imaginações, porque os últimos tempos têm mudado de forma espetacular. Vocês nasceram para levar em uma boa direção um trabalho que acaba de começar. O jornalismo está atravessando uma grande revolução eletrônica. As novas tecnologias facilitam muito nosso trabalho, mas não ocupam seu lugar. Todos os problemas da profissão, nossas qualidades, nosso caráter artesanal, continuam inalteráveis. Qualquer descoberta ou avanço técnico pode certamente ajudar, mas não pode ocupar o espaço do nosso trabalho, da nossa dedicação, do nosso estudo e da nossa apuração.

Em nossa profissão há alguns elementos muito importantes.

O primeiro é uma certa disposição para aceitar o sacrifício de uma parte de nós mesmos. É uma profissão muito exigente. Todas são, mas a nossa é de uma forma particular. O motivo é que nós convivemos com ela vinte e quatro horas por dia. Não podemos encerrar o expediente às quatro da tarde e nos ocuparmos de outras atividades. É um trabalho que ocupa toda nossa vida, não existe outra forma de fazê-lo. Ou, pelo menos, de fazê-lo perfeitamente.

Dá para dizer, naturalmente, que é possível produzir de forma plena em dois níveis muito diferentes.

A nível artesanal, como é o caso de 90% dos jornalistas, não se diferencia em nada do trabalho comum de um sapateiro ou de um jardineiro. É o nível mais baixo.

Porém, logo há um nível mais elevado, que é o mais criativo: aquele em que, no trabalho, colocamos um pouco de nossas ambições e individualidades. E isso requer, verdadeiramente, toda nossa alma, nossa dedicação e nosso tempo.

O segundo elemento da profissão é a constante expansão em nossos conhecimentos. Há profissões para as quais, normalmente, vamos para a faculdade, pegamos um diploma e acabou o estudo. Durante o resto da vida devemos, simplesmente, aplicar o que foi aprendido. No jornalismo, a atualização e o estudo constantes são a conditio sine qua non. O trabalho consiste em investigar e descrever o mundo contemporâneo, que está em movimento contínuo, profundo, dinâmico e revolucionário. Dia após dia, temos que estar cientes de tudo isso e em condições de prever o futuro. Por isso, é necessário estudar e aprender constantemente. Tenho muitos amigos de grande qualidade que começaram a exercer o jornalismo e que depois de poucos anos foram desaparecendo. Acreditavam muito em suas habilidades naturais, mas essas se esgotam em pouco tempo; de maneira que ficaram sem recursos e deixaram de trabalhar.

Há uma terceira qualidade importante para nossa profissão, que é não considerá-la uma forma de enriquecer. Para isso existem outras profissões que permitem ganhar muito mais e mais rapidamente. Para começar, o jornalismo não dá muitos frutos. De fato, quase todos os jornalistas iniciantes são gente pobre e por muitos anos não gozam de uma situação econômica favorável. Trata-se de um ofício com uma precisa estrutura feudal: sobe de nível só com a idade e requer tempo. Podemos encontrar muitos jornalistas jovens frustrados, porque trabalham muito por um salário baixo, logo perdem o emprego e, às vezes, não conseguem outro. Tudo isso faz parte da profissão. Portanto, tenha paciência e trabalhe. Nossos leitores, ouvintes e telespectadores são pessoas muito justas, que reconhecem rápido a qualidade do nosso trabalho e, com a mesma velocidade, começam a associá-lo ao nosso nome; sabem que desse nome vai receber um bom conteúdo. Esse é o momento em que se consolida um jornalista estável. Não será o diretor a decidir, mas os leitores.

Para chegar lá, porém, são necessárias as qualidades que mencionei no início: sacrifício e estudo.

A pergunta de Maria fez referência ao peso que a experiência pessoal tem sobre o que se está escrevendo. Depende. Em nossa profissão, podem gerar coisas muito diferentes. Com os anos, nos especializamos em uma carreira específica.

Em geral, os jornalistas se dividem em duas grandes categorias. A categoria de servos da gleba e a de diretores. Estes últimos são os patrões, os que ditam as regras, são os que decidem. Eu nunca fui diretor, mas sei que hoje não é necessário ser jornalista para comandar meios de comunicação. Em efeito, a maioria dos diretores e presidentes dos grandes grupos de comunicação não são, de modo algum, jornalistas. São grandes executivos.

A situação começou a mudar no momento em que o mundo entendeu, não faz muito tempo, que a informação é um grande negócio.

No início do século XX, a informação tinha duas caras. Podia focar na busca pela verdade, na identificação do que acontecia realmente, e em informar o povo disto, tentando orientar a opinião pública. Para a informação, a verdade era a qualidade principal.

O segundo modo de conceber a informação é tratá-la como instrumento de luta política. No início, os jornais, as rádios e a televisão, eram instrumentos de diversos partidos e forças políticas em luta pelos próprios interesses. Por exemplo, no século XIX, na França, Alemanha ou Itália, cada partido e cada instituição relevante tinha sua própria imprensa. A informação, para essa imprensa, não era buscar a verdade, mas ganhar espaço e vencer o inimigo particular.

Na segunda metade do século XX, especialmente nos últimos anos, com o fim da guerra fria, com a revolução tecnológica e comunicacional, o mundo dos negócios descobre de repente que a verdade não é importante, e que nem sequer a luta política é importante: o que conta, na informação, é o espetáculo. E, uma vez que temos criado a informação-espetáculo, podemos vendê-la em qualquer canto. Quanto mais espetacular a notícia, mais dinheiro podemos ganhar com ela.

Dessa maneira, a informação se separou da cultura: começou a flutuar no ar; quem tem dinheiro, pode pegá-la, difundi-la e ganhar mais dinheiro. Portanto, hoje nos encontramos em uma era da informação completamente distinta. Na situação atual, este é o fato novo.

E este é o motivo por que, de repente, à frente dos maiores grupos televisivos, encontramos gente que não tem nada a ver com o jornalismo, que só são grandes homens de negócios, vinculados a grandes bancos, empresas de seguros ou qualquer outra entidade com muito dinheiro. A informação começou a render, e a render em grande velocidade.

Portanto, o mundo da informação está recebendo cada vez mais dinheiro.

Há outro problema, porém. Há quarenta, cinquenta anos, um jovem jornalista podia ir em seu chefe e expor seus problemas profissionais: como escrever, como fazer uma reportagem para rádio ou televisão etc. E o chefe, que geralmente era mais experiente que ele, lhe contava sua própria experiência e dava bons conselhos.

Hoje, tente ir ao Mr. Turner, que nunca foi jornalista e raramente lê jornais ou assiste à televisão: não poderá dar nenhum conselho, porque não tem a mínima ideia de como se faz nosso trabalho. Sua missão não é melhorar a profissão, mas unicamente ganhar mais.

Para essas pessoas, viver a vida de pessoas comuns não é importante ou necessário; o cargo não é baseado na experiência do jornalista, mas nas máquinas de fazer dinheiro.

Para os jornalistas que trabalhamos com pessoas, que tentamos entender suas histórias, que temos que apurar e investigar, a experiência pessoal é, naturalmente, fundamental. A fonte principal do nosso conhecimento jornalístico são os outros. Os outros são os que dirigem, que dão opiniões, interpretam para nós o mundo que tentamos entender e descrever.

Não há jornalismo possível à margem da relação com outros seres humanos. A relação com os outros é um elemento imprescindível de nosso trabalho. É indispensável ter noções de psicologia, há que saber como abordar as pessoas, como tratá-las e entendê-las.

Creio que para exercer o jornalismo, antes de tudo, há que ser um bom homem ou uma boa mulher: bons seres humanos. As pessoas más não podem ser bons jornalistas. Se se é uma boa pessoa se pode experimentar compreender os demais, suas intenções, suas fés, seus interesses, suas dificuldades e tragédias. E tornar-se, imediatamente, desde o primeiro momento, em parte de seu destino. É uma qualidade que na psicologia se denomina empatia. Com empatia, é possível compreender o caráter do próprio interlocutor e compartilhar de forma natural e sincera o destino e os problemas dos outros.

Neste sentido, o único modo correto de fazer nosso trabalho é desaparecer, esquecer de nossa existência. Existimos somente como indivíduos que existem para os demais, que participam com eles de seus problemas e tentam resolvê-los, ou ao menos descrevê-los.

O verdadeiro jornalismo é intencional, a saber: aquele que fixa num objetivo e que tenta provocar algum tipo de mudança. Não há outro jornalismo possível. Falo, obviamente, do bom jornalismo. Se você ler os melhores jornalistas – Mark Twain, Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez – vai comprovar que se trata de um jornalismo intencional. Estão lutando por algo. Narram para alcançar, obter algo. Isso é muito importante em nossa profissão. Sermos bons e desenvolver em nós mesmos a empatia.

Sem estas qualidades, podem ser bons diretores, porém não bons jornalistas. Isso por uma razão simples: porque a gente com que terão que trabalhar – e nosso trabalho de campo é um trabalho com gente – descobrirá imediatamente suas intenções e atitude para com ela. Se percebem que são arrogantes, que não estão interessados realmente em seus problemas, se descobrem que estão ali só para fazer umas fotografias ou recolher um pouco de material, as pessoas reagem de forma negativa. Não vão falar, não vão ajudar e não serão amigáveis. E, evidentemente, não entregarão o material que buscam.

E sem a ajuda dos outros não se pode escrever uma reportagem. Não se pode escrever uma história. Toda reportagem – mesmo que assinada apenas por quem a escreveu – é fruto de um trabalho de muitos. O jornalista é o redator final, mas o material foi obra de muitos envolvidos. Toda boa reportagem é um trabalho coletivo, e sem espírito de coletividade, de cooperação, de boa vontade e compreensão recíproca, escrever é impossível.

Pergunta do público:  Como começou a viajar pelo mundo? E, antes de começar, foi um pouco cínico também, como somos todos?

Ryszard Kapuściński: Iniciei escrevendo como poeta. Quando ainda estava no colégio, publiquei alguns poemas, o diretor de uma revista me notou e pediu para que trabalhasse para eles enquanto terminava os estudos. Assim que saí da escola, aos 18 anos, comecei a trabalhar como jornalista. Desde o primeiro momento fiquei fascinado com a profissão. Acabávamos de sair da Segunda Guerra Mundial, a Europa estava destruída, muitos refugiados vagavam de um país a outro, entre a pobreza e a ruína. Pode parecer patético, mas foi aí que desabrochou em mim a paixão por descrever nossa pobre existência humana. Também me interessava muito ver o mundo, mas estávamos no período comunista e para nós era impossível ir para o estrangeiro. Logo veio uma época de tranquilidade nas relações internacionais, e junto com a morte de Stalin, pouco a pouco voltamos a viajar para fora. Em minha primeira viagem me mandaram para Índia, Paquistão e Afeganistão. Desde então, divido meu tempo entre escrever sobre meu país e outros países.

Estou convencido de que o século XX tem sido extremamente fascinante. Geralmente, é descrito como um século de desastres: a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, as ditaduras, os regimes totalitários, o fascismo, o comunismo… Creio que o século XX tem vivido uma experiência histórica única: a criação de um planeta independente. Ao vermos um mapa da Terra como era no começo do século e como está hoje, vamos encontrar situações completamente distintas. Na primeira, encontramos poucos estados independentes, e o resto do mundo sob dependência colonial ou semicolonial. Hoje, encontramos quase 200 estados independentes, e o número cresce. O colonialismo deixou de existir e as colônias quase não existem. Embora o nível econômico de muitas nações seja baixíssimo, embora tenham sociedades muito infelizes, vivemos num mundo em que quase seis bilhões de pessoas são, pelo menos nominalmente, seres humanos politicamente independentes. Acredito que esta é uma característica positiva de nosso século, algo que não podemos deixar cair no esquecimento.

Eu fui uma das testemunhas deste acontecimento fenomenal, que nunca antes havia ocorrido na história da humanidade, e que não voltará a se repetir. Todas as minhas obras são dedicadas a esta excepcional experiência humana.

Sobre a segunda parte da pergunta, nossa profissão não pode ser exercida corretamente por ninguém que seja cínico. É necessário diferenciar: uma coisa são os céticos, os realistas, os prudentes. Isso é absolutamente necessário, caso contrário, não haveria jornalismo. Algo muito diferente de ser cínico, uma atitude incompatível com o ofício de jornalista. O cinismo é uma atitude desumana, que nos afasta do nosso trabalho, ao menos quem o leva a sério. Naturalmente, estamos falando só do grande jornalismo, o único que vale a pena fazer, e não desta forma detestável de entendê-lo como vemos por aí.

Na minha vida, encontrei centenas de maravilhosos jornalistas, de diferentes países e gerações. Nenhum deles era um cínico. Pelo contrário, eram pessoas que valorizavam muito o que faziam, muito sérias; em geral, pessoas muito humanas.

Como sabem, a cada ano mais de cem jornalistas são assassinados, e outras centenas são presos e torturados. Trata-se de uma profissão muito perigosa, em diferentes partes do mundo. Quem decide seguir com este trabalho e está disposto a se empenhar ao máximo, com risco e sofrimento, não pode ser um cínico.

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