Discurso diante do congresso de jovens trabalhadores

Por György Lukács. Traduzido por Caique de Oliveira Sobreira Cruz e Manassés de Jesus Santos Júnior.

Discurso transcrito em forma de artigo originalmente em húngaro, mas, transliterado para o alemão em 1977, no formato de capítulo de livro.


A realização da ditadura do proletariado levou a uma mudança de função em todas as organizações do proletariado e, também, dentro do movimento dos jovens trabalhadores[1] (Jungarbeiterbewegung). Além das lutas contra o militarismo e as discussões econômicas e políticas, que eram as nossas principais preocupações, a luta pela educação[2] (Bildung) e pela cultura era, antes da revolução, apenas um objetivo entre muitos.

Entretanto, essa luta era (deveria ser[3]), mesmo antes da ditadura do proletariado, um dos mais importantes objetivos do movimento dos jovens trabalhadores (Jungarbeiterbewegung). Através de grandes lutas e renúncias, procurava-se obter forçosamente as mínimas concessões daqueles que não estavam dispostos a conceder nada aos trabalhadores e, principalmente, nada aos jovens trabalhadores, que compõe o grupo mais excluído do acesso ao conhecimento (Wissen) e à educação (Bildung). Com a mudança de função (devido à revolução[4]), deve-se colocar no cerne da atividade dos jovens trabalhadores a luta pela cultura, pela autoeducação[5] (Selbstildung) e pela aprendizagem.

Parece, à primeira vista, que o objetivo, a partir da perspectiva do movimento, tornou-se um pouco mais modesto. Porém, esta é uma constatação muito superficial. A essência da sociedade capitalista consiste no fato de que as forças econômicas dominam ilimitadamente a sociedade, com total arbitrariedade, como se fossem forças naturais cegas; em que todo o resto: ciência, beleza, moral, é apenas uma consequência e um produto dessas forças abandonadas a si mesmas, liberadas, cegas, desprovidas de finalidade. Essa situação foi radicalmente modificada a partir da vitória do proletariado. A sociedade tomou em suas próprias mãos a condução dos fatores econômicos.

O objetivo final[6] (Endziel) é que seja eliminada a autonomia pecaminosa e nefasta da vida econômica, que a vida econômica e a produção sejam colocadas a serviço da humanidade, das ideias humanitárias, da cultura. Se vocês vão, pois, além da luta econômica, e se dedicam à cultura, vocês estão se entregando àquela parte da condução e direção da sociedade que construirá a ideia dominante de uma sociedade futura. Se a aprendizagem é agora a tarefa mais importante, surge a próxima pergunta: o que você deve aprender; e como? Aí que se revela o papel substancial dos jovens trabalhadores a esse respeito. Todos nós, que lutamos pela vitória do proletariado, somos – sem exceção – seres contaminados e vítimas do capitalismo. Se a nossa tarefa agora é cuidar para que o espírito e para que a moral da juventude possam ser desenvolvidos, então precisamos, para este trabalho, da vossa[7] ajuda.

É também para o vosso benefício que devem se engajar[8] (einzuschalten) na luta pela cultura, para que possamos realizá-la e, também, para que possamos estabelecer quais das criações dos séculos passados ainda[9] podem persistir, quais delas podemos aproveitar (benützen[10]) e quais são inúteis. Por isso pedimos (bitten[11]) que aprendam. O objetivo principal de suas vidas deve ser a educação (formação[12]), concedam à nova cultura um sentido e um propósito (finalidade[13]). Tudo o que essa nova cultura contém nascerá da vossa alma; tudo depende de como vocês aprendem e de como se desenvolvem. Disso depende a construção dessa nova sociedade, a sociedade do socialismo, pela qual temos lutado e ainda lutamos.

Mesmo quando não houver mais conflitos econômicos, não esqueçam aquela luta que vocês travaram contra o militarismo. Mesmo que o conflito econômico tenha cessado parcialmente, o proletariado, no entanto, continua em luta. E se não precisam participar diretamente dela (da luta[14]), tomem parte através daquela participação interior, por intermédio daquela tarefa que envolve a aprendizagem. Na busca do grande objetivo, somos constantemente obrigados a assumir compromissos[15] (concessões[16]). Não devemos ser demasiadamente exigentes com relação aos meios. Temos que fazer tudo de acordo com os interesses de classe do proletariado. Contudo, vocês não estão diretamente envolvidos nessa luta. O vosso papel é travar uma luta política livre de compromissos (concessões[17]), completamente pura, intransigente, imaculada, estabelecendo um padrão moral para ela, pois a chama arde completamente limpa em um só lugar. Esse lugar se encontra na alma da juventude. E acreditem em mim, em cada luta e em cada discussão, o mais importante é que exista um espaço livre de compromissos, onde a luta do proletariado se desenvolva de forma completamente pura.

Qualquer que seja a mudança de função que o movimento dos jovens trabalhadores tenha experimentado (erfahren[18]), contanto que vocês permaneçam puros, o vosso papel consistirá, hoje e no futuro, em representar uma vanguarda da revolução. (Aplausos prolongados, repetidos e gritos de “Viva”[19]).


Notas

[1] Optamos por traduzir Jungarbeiterbewegung como “jovens trabalhadores”, mas, advertimos que existem outras hipóteses possíveis, cabíveis e bem fundamentadas como é o caso de “jovens operários”. Contudo, para manter um alinhamento com a produção teórica de Caique Sobreira, um dos tradutores do texto, transliteramos para “jovens trabalhadores”, pois em seus escritos, Sobreira utiliza “Arbeiterklasse” enquanto classe trabalhadora como um todo, ou seja, o “operariado” sendo apenas uma das múltiplas determinações da classe, um dos seus elementos específicos, os quais vão variando conforme o fenômeno de transformação processual da morfologia da classe trabalhadora. (N.T).

[2] Neste caso utilizamos o termo “educação” para refletir melhor o sentido de Bildung no discurso de Lukács. Pois, Bildung, partindo do seu radical no alemão, também pode derivar em “formação”, “instrução”, “treinamento”, “experimentação”, sendo o termo “formação” utilizado nas traduções para o inglês e espanhol. No entanto, em nosso vernáculo, a semântica mais usual (do público em geral, e não de militantes organizados que compreendem “formação”) que temos para “formação” significa algo formal; educação formal, escola e/ou colégio, formação universitária e/ou acadêmica, formação técnica para o mercado de trabalho etc. Porém, os sentidos de “Bildung”, empregados por Lukács em seu discurso, contém dois significados que não podem ser expressos pelas outras traduções, o primeiro é de educação latu sensu como um complexo social ao lado da cultura, da economia, do conhecimento, terminologias que expressam questões gerais que não cabem em contexto de “formação”, o segundo é de educação stricto sensu enquanto momento e estágio de aprendizagem dos jovens trabalhadores com relação à sua interpretação de mundo e da luta de classes, uma educação que pode ser realizada dentro das próprias organizações dos jovens trabalhadores, uma espécie de “autoeducação”, uma educação e conhecimento militante. Em nenhum dos dois casos é possível utilizar um termo que possa remeter à educação formal: “formação”. (N.T).

[3] (A.T).

[4] (A.T).

[5] Traduzimos aqui o Selbstildung, no mesmo sentido empregado ao Bildung enquanto educação, portanto, com a conjugação: “autoeducação”.

[6] Nesta tradução em especial, optamos por utilizar “objetivo final”, diferentemente da tradução que realizamos do artigo “Tática e Ética” em que percebemos o melhor efeito utilizando “fim último”.

[7] Incrementamos, por conta própria, os pronomes possessivos “vossa” e “vosso” recorrentemente em nossa tradução, baseando-nos no fato de ser um discurso de Lukács direcionado para uma plateia, estando, a rigor, na forma gramatical, em segunda pessoa gramatical e no plural, sendo o “famoso” pronome de tratamento/pronome de segunda pessoa indireta, acompanhado de verbos de concordância na terceira pessoa. Evidentemente que, por não termos aprofundamento em estudos acerca da gramática brasileira, podemos ter realizado uma interpretação incorreta sobre essa questão. Acaso seja esta a situação, indicamos que se leiam todos os “vossa” e “vosso” como se fossem “vocês” ou “sua”, tal qual está na edição em alemão. Ressalvando ainda que, mesmo sabendo que todas as traduções tenham utilizado o “vocês”, temos um particular em que, no nosso vernáculo, esse termo é derivado etimologicamente do “Vossa Mercê”, o que contribui para a possibilidade da utilização como fizemos. (N.T).

[8] No original: devem se ligar na luta. (N.T).

[9] (A.T).

[10] Literalmente: usar ou utilizar. (N.T).

[11] Originalmente: solicitamos. (N.T).

[12] (A.T).

[13] (A.T).

[14] (A.T).

[15] Com o termo “compromisso” Lukács estava se referindo ao que conhecemos em nosso cotidiano na luta de classes com o significado de: concessões de todas as ordens, conciliações de classe, conchavos políticos/econômicos com a burguesia ou com os seus representantes na forma de partidos ou políticos burgueses etc. (N.T).

[16] (A.T).

[17] (A.T).

[18] No original: sofrido. (N.T).

[19]Es lebe”. (N.T).


Notas dos tradutores

Para realizar a tradução deste discurso (transcrito em texto) de György Lukács, baseamo-nos, principalmente, na versão, em alemão, intitulada “Rede auf dem Kongreß der Jungarbeiter”, disponibilizada em 1977 pela “Hermann Luchterhand Verlag GmbH & Co KG Darmstandt und Neuwied”, com produção geral da “Druck – und Verlags-Gesellschaft mbH, Darmstadt” e edição do saudoso e brilhante professor Frank Benseler. Mantivemos toda a estrutura formal do original, desde as composições dos parágrafos até as pontuações pouco usuais ao PT-BR, visando a manter uma fidelidade, na medida do possível, ao rascunho alemão. Entretanto, para servir de auxílio paralelo na empreitada desta tradução, utilizamos, também, mais duas versões do texto (em inglês e espanhol), com o intuito de ter um suporte na inclusão de notas de rodapés que ajudam a compreender melhor o escrito e, pari passu, resgatamos algumas terminologias dessas outras traduções que são transliteradas para o português com maior precisão do que os termos que estão sendo expostos na Edição em alemã. A versão inglesa que utilizamos, “Georg Lukács Tactics and Ethics 1919-1929. The Questions of Parliamentarianism and Other Essays”, com o capítulo “Speech at the Young Workers’ Congress”, foi publicada, em 2014, pela “Verso” em New York, com tradução de Michael McColgan e introdução de Rodney Livingstone, replicada da primeira versão em inglês, de 1972, da New Left Books. Por fim, utilizamos a versão em espanhol, “Táctica y ética. Escritos tempranos (1919-1929)”, com o capítulo “Discurso ante el congreso de jóvenes trabajadores”, que foi publicada, em 2014, pela “Ediciones Herramienta” de Buenos Aires-Argentina, traduzida por Miguel Vedda e com introdução de Antonino lnfranca e Miguel Vedda.


Sobre os autores

Caique é Graduado em Direito pela Universidade Católica do Salvador (2018). Especialista em Sociologia pela Universidade Estácio de Sá (2021). Mestrando em Políticas Sociais e Cidadania pela Universidade Católica do Salvador. Pesquisador Interdisciplinar da FAPESB. Educador popular em Sociologia pelo pré-vestibular da ADEP-UERJ.

Manassés é Graduado em Desenho Industrial pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Graduado em Direito pelo Centro Universitário Maurício de Nassau (Uninassau). Cursando MBA em BI, Marketing Digital e Estratégia Data Driven pela PUCRS.

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