Realismo capitalista e sofrimentos psíquicos na vida acadêmica

Por Diego José Nogueira Fraga*

“Fato é que o realismo capitalista está muito presente na vida universitária. Encaramos o hiper-produtivismo acadêmico e a extensa burocracia no ensino superior e na pesquisa como fenômenos naturais que estão dados e que não existem alternativas. A generalização do modelo empresarial nas instituições públicas e a sua internalização na vida dos sujeitos resultam num ambiente de concorrência e individualismo entre estudantes, professores, pesquisadores e instituições de ensino e pesquisa”.

1 – Introdução

Para quem está inserido na vida acadêmica, já se tornou bastante comum os debates sobre sofrimentos psíquicos entre discentes e docentes nas universidades. Infelizmente esses debates refletem a triste realidade na qual problemas como estresse, ansiedade e depressão se tornaram, sem exageros, uma verdadeira epidemia (Weale, 2019).

É possível encontrar as origens dessa epidemia tanto nas dinâmicas próprias da vida universitária quanto em situações sociais mais amplas ou particulares de cada indivíduo. Não tenho como objetivo aqui discutir o peso das variáveis ligadas a questões familiares ou traumas pessoais no cenário da epidemia de sofrimentos psíquicos na vida acadêmica, mas sim, um aspecto que correlaciona o campo acadêmico (para colocar um pé no jargão bourdiesiano)  e a situação da luta de classes (para colocar o outro pé no jargão marxista).

Desse modo, o objetivo do texto é demonstrar que os sofrimentos psíquicos que estão relacionados de forma crescente à competitividade no ambiente acadêmico, característica herdada da hegemonia neoliberal, possuem um agravante naquilo que Mark Fisher vai chamar de Realismo Capitalista. O ensaio é dividido em quatro seções contando com esta introdução. Na segunda seção mostraremos as implicações da hegemonia neoliberal na vida acadêmica e na produção do conhecimento, tanto no nível institucional quanto no nível dos sujeitos. A terceira seção relaciona a ideia de realismo capitalista com o contexto acadêmico neoliberal trabalhado na seção anterior. Na quarta seção traremos uma breve conclusão.

2 – A hegemonia neoliberal e a vida acadêmica

Desde o final dos anos 70 e início dos anos 80 do século passado, vimos como o neoliberalismo avançou ao redor do globo com suas ondas de privatizações, desregulamentação do mercado de trabalho, financeirização da vida e o correspondente discurso militante em favor da competitividade entre empresas e entre pessoas. É possível resumir o discurso, racionalidade ou ideologia neoliberal como a generalização da visão empresarial e concorrencial por todo o tecido social, de modo que, como argumentam Pierre Dardot e Christian Laval (2016), tanto a ação dos governantes quanto a dos governados passam a ser estruturados e organizados dentro dessa lógica.

À lógica da concorrência se soma uma atomização cada vez maior dos agentes sociais na qual os atores sociais são chamados a agir como indivíduos livres de laços sociais e responsáveis, eles mesmos, por sua formação, saúde, trabalho, etc. Dentro dessa lógica, o sucesso, o fracasso, os riscos e a segurança são vistos como fruto do esforço individual, desresponsabilizando o Estado e a sociedade pelo bem-estar individual e das famílias. Como disse Margareth Thatcher, “there’s no such thing as society”.

O neoliberalismo, enquanto ideologia dominante mudou não só formas de pensar, como, consequentemente, as práticas. No caso da academia, os pesquisadores Sheila Slaughter e Larry Leslie (2001) cunharam o termo “capitalismo acadêmico” para tentar compreender como as universidades têm respondido às mudanças impostas nesse cenário. Com foco nos EUA e Grã-Bretanha, os autores obervam que o ensino superior se tornou um sub-grupo das políticas econômicas e que a pesquisa pública teve de se adaptar a uma forte concorrência pelos escassos recursos públicos e privados, se submeter a parcerias com empresas, apelar para doações e aumentar as anuidades do corpo discente (cabe lembrar aqui, inclusive, do problema que é hoje a dívida dos egressos do sistema universitário estadunidense). Se a coletividade científica equilibrava seu comportamento entre a cooperação e a concorrência, agora a balança tende vigorosamente para a concorrência.

No Brasil, o financiamento que ainda existe às universidades e à pesquisa é basicamente proveniente de fontes públicas, mas um dos aspectos que aproxima a academia brasileira com a realidade dos outros países no contexto neoliberal é o apelo à produtividade. A lógica mercantil e empresarial sob o neoliberalismo passa a ser aplicada de forma generalizada ao Estado e aos indivíduos.

Dardot e Laval (2016), examinando o neoliberalismo em termos de uma racionalidade, mostram que cabe ao Estado, por um lado, ser mais um ator no mercado de oferta de proteção social e serviços, enfraquecendo o seu papel de provedor de bem-estar social e, por outro, mostrar força na construção e regulação desse próprio mercado. Não se trata necessariamente de Estado mínimo, mas sim de um Estado cujo objetivo é a construção e manutenção da concorrência.

Aos indivíduos cabe também internalizar essa racionalidade. Assim cada sujeito passa a ser sua própria empresa, num processo de alinhamento entre os interesses individuais dos trabalhadores e os interesses do capital. Evidentemente que um processo de transformação como esse imposto pela hegemonia da ideologia neoliberal não se dá sem resistências – conscientes ou não – e aqui cabe o papel do Estado (e de seus aparelhos ideológicos) no assujeitamento dos indivíduos.

Nesse ponto, a disseminação de propaganda ideológica neoliberal através da mídia, instituições de ensino, igrejas e demais aparelhos ideológicos toma grande importância na disseminação da subjetividade neoliberal. Nas instituições públicas, a generalização de tecnologias de gestão e a visão voltada para a eficiência e produtividade típicas das empresas privadas tomam espaço. As universidades e a pesquisa não estão fora desse contexto.O fenômeno da hiper-produtividade acadêmica analisado por Lindsay Waters (2004) talvez seja a melhor expressão do que estamos tratando. Como mostra Waters, a avaliação da produção científica de pesquisadores e pesquisadoras por parte das agências de fomento nos Estados Unidos passou a se basear desde meados do século passado em critérios quantitativos, ou seja, quanto mais publicações, melhor o currículo. No Brasil, instituições de fomento à pesquisa e pós-graduação como a CAPES e o CNPq também sobrevalorizam a análise quantitativa da produção acadêmica.

Esse fenômeno está tão internalizado na academia brasileira, que os processos seletivos para docentes nas instituições de ensino superior e a avaliação dos programas de pós-graduação também tendem a valorizar mais a quantidade do que a qualidade da produção científica e tecnológica dos candidatos e programas, respectivamente. O processo avaliativo da pós-graduação brasileira, inclusive, tende a criar uma forte concorrência entre os programas e uma corrida por recursos. Como em qualquer competição, os vencedores levam os prêmios.

Contudo, como consequência, dentre outros fatores, da política do “publique ou pereça” e da burocracia acadêmica de fazer inveja a qualquer caricatura da burocracia soviética, estão os cada vez mais frequentes relatos de sofrimentos psíquicos no ambiente universitário. E esses transtornos atingem tanto alunos de graduação (Andifes, 2018) quanto de pós-graduação (Costa e Nebel, 2018) e docentes (Zandoná et. al., 2014). Esse fato denota que apesar dos esforços de assujeitamento à ideologia neoliberal, esse processo não se dá sem percalços e resistências. Ainda que estejamos todos sujeitos aos mecanismos de constrangimento do neoliberalismo, não existe uma força natural que nos imponha a adaptabilidade a esse regime, trata-se de uma disputa política.

3 – O capitalismo acadêmico e o realismo capitalista

Nesse sentido, as reflexões propostas pelo critico cultural britânico Mark Fisher (2020) nos são úteis como forma de despertar, interpretar e transformar a realidade. Para Fisher, não existe nenhum elemento que mostre que de fato o público tenha abraçado realmente as doutrinas neoliberais com entusiasmo. O que ocorre é que as pessoas foram persuadidas à ideia de que não existem alternativas ao neoliberalismo.  Ou seja, de alguma forma, a tese do “fim da história” de Francis Fukuyama continua a ressoar como verdade. Assim, o que Fisher chama de realismo capitalista

[…] pode ser visto tanto como uma crença quanto como uma atitude. É a crença de que o capitalismo é o único sistema econômico viável, uma simples reafirmação da antiga máxima thatcherista: “não há alternativa”. […] Que o descontentamento seja praticamente universal não muda em nada o fato de que não parece haver alternativa viável ao capitalismo – não muda a crença de que o capitalismo  ainda possui todas as cartas na mesa e que não há nada que possamos fazer sobre isso. (Fisher 2020, p .152)

 

Para Mark Fisher (2020, p. 144) o realismo capitalista é “expressão da decomposição de classe, e uma consequência da desintegração de classe”. O que Wolfgang Streeck (2016) vai chamar de revolução neoliberal a partir dos anos 1980 teria como objetivo, na visão de Fisher,  desconstruir os laços de solidariedade em detrimento da generalização da competição.

Um sinal do descontentamento descontente, da angústia que arde sem se ver, promovido pelo realismo capitalista, seria o fato de que “[…] o trabalho de auto-vigilância que se exige rotineiramente dos trabalhadores – todas aquelas autoavaliações, revisões de performance, livros de registro – seria, como nos é dito, um preço pequeno a pagar para manter nossos empregos”.  Assim, “[…] essa situação dupla – em que algo é detestado, mas ao mesmo tempo é realizado – é típica do realismo capitalista, e é particularmente pungente no caso da academia, uma das supostas fortalezas da esquerda”.  (Fisher, 2020 p. 144).

Nesse contexto de generalização da lógica de mercado, da naturalização do capitalismo neoliberal como única solução, e da quebra da solidariedade de classe, o declínio dos sindicatos e o descrédito dos partidos de esquerda representam muito mais do que apenas um dado conjuntural. Se por um lado há um descontentamento considerável com a atual fase do capitalismo em todo o mundo, por outro as instâncias coletivas de representação que seriam  capazes de dar vazão a esse descontentamento encontram-se em crise. O fenômeno resultante desse descontentamento que encontra poucas formas de se manifestar que não sejam individuais é nomeado por Mark Fisher como “privatização do estresse”, que se converte facilmente em depressão e outros sofrimentos psíquicos.

Fato é que o realismo capitalista está muito presente na vida universitária. Encaramos o hiper-produtivismo acadêmico e a extensa burocracia no ensino superior e na pesquisa como fenômenos naturais que estão dados e que não existem alternativas. A generalização do modelo empresarial nas instituições públicas e a sua internalização na vida dos sujeitos resultam num ambiente de concorrência e individualismo entre estudantes, professores, pesquisadores e instituições de ensino e pesquisa.

Com isso, as próprias instâncias de representação estudantil e sindical tendem a ser esvaziadas, uma vez que as soluções só se apresentam como individuais. Como não há alternativa ao que está dado, as pautas de reivindicação daqueles que ainda persistem em se organizar coletivamente também tendem a não ir além do que aparece enquadrado nos ditames neoliberais.

Com efeito, o estresse privatizado por esse ciclo vicioso neoliberal se manifesta através de uma verdadeira epidemia de sofrimentos psíquicos na vida universitária. No caso brasileiro, o quadro é ainda mais grave para determinadas parcelas da população que carregam para dentro da vida acadêmica hiperprodutivista os estigmas impostos por uma sociedade racista, homofóbica e patriarcal. Os dados da pesquisa da Andifes (2018) dão conta dessa estratificação do sofrimento mental entre estudantes de graduação.

4 – Conclusão

Assim, vimos que as transformações no capitalismo que começaram no final dos anos 1970, particularmente nos Estados Unidos e Reino Unido, tiveram implicações diretas na organização institucional das universidades e da pesquisa, assim como na forma como os próprios cientistas, professores e estudantes agem e pensam dentro da academia, sendo o hiper-produtivismo o maior dos seus sintomas.

Por outro lado, esse contexto que emergiu não o fez sem que houvesse resistências ou impactos na vida das pessoas, sugerindo que há um desconforto generalizado entre os atores diretamente envolvidos na vida acadêmica que, entretanto, tem dificuldades de visualizar alternativas ao atual modelo, bem como de encontrar formas de organização coletiva que dê vazão a esse descontentamento. É nesse cenário realista capitalista que os sofrimentos psíquicos florescem e se tornam uma epidemia.

O desafio, portanto, é como ultrapassar o realismo capitalista. É como podemos construir alternativas ao que está colocado como naturalmente dado. Não há dúvidas de que esse desafio não é só da universidade ou da coletividade científica e sim da sociedade como um todo. Também não há dúvidas de que para isso será necessário reconstruir os laços de solidariedade perdidos para o individualismo neoliberal, assim como recolocar na pauta da organização política a recomposição da consciência de classe. Um projeto como esse não acontece no vácuo, é preciso que as pessoas se movimentem e se organizem. A universidade, enquanto um repositório da elite intelectual do país poderia ser um embrião para esse movimento.

*Sociólogo, mestre em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (UFRJ), doutorando em Sociologia (PPGSA – UFRJ/CNPq) e membro do núcleo de pesquisa Desenvolvimento, Trabalho e Ambiente (DTA-UFRJ)

Referências bibliográficas

ANDIFES. V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos (as) Graduandos (as) das IFES, 2018. Link: <http://www.andifes.org.br/wp-content/uploads/2019/05/V-Pesquisa-do-Perfil-Socioeconômico-dos-Estudantes-de-Graduação-das-Universidades-Federais-1.pdf>. Último acesso: 20/12/2020

DARDOT, Pierre.; LAVAL, Christian. A Nova Razão do Mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.

FISHER, Mark. Realismo Capitalista: É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? São Paulo: Autonomia Literária, 2020. 218p.

GARCIA DA COSTA, Everton; NEBEL, Letícia. O quanto vale a dor? Estudo sobre a saúde mental de estudantes de pós-graduação no Brasil. Polis,  v. 17, n. 50, 2018 p. 207-227.

SLAUGHTER, Sheila e LESLIE, Larry L. Expanding and Elaborating the Concept of Academic Capitalism. Organization, n° 8 vol. 2, 2001 p. 154 – 161

Streeck, Wolfgang – Tempo comprado – A crise adiada do capitalismo democrático. São Paulo: Boitempo, 2018.

WATERS, Lindsay.  Enemies of Promise: publishing, perishing, and the eclipse of scholarship.Chicago: Prickly Paradigm Press, 2004. 104p

WEALE, Sally. Higher education staff suffer ‘epidemic’ of poor mental health. The Guardian International Edition, Londres. 23 de maio de 2019.  Link: <https://www.theguardian.com/education/2019/may/23/higher-education-staff-suffer-epidemic-of-poor-mental-health>  último acesso: 20/12/2020

ZANDONÁ, Claudiane ET. al. Produtivismo Acadêmico, Prazer e Sofrimento: um estudo bibliográfico. PERSPECTIVA,. v. 38, n.144, 2014 p. 121-130.

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