Carta aos camaradas

Por Vladímir Ilitch Lênin, transcrito por Angelo Ardonde

Camaradas,

O momento que vivemos é tão crítico e os acontecimentos movem-se com tão incrível rapidez que o publicista situado, por vontade do destino, um pouco à margem da corrente principal da história, corre o risco de chegar sempre tarde ou de estar pouco informado, sobretudo se seus escritos vêm à tona com atraso. Com plena consciência disto, vejo-me obrigado, não obstante, a dirigir esta carta aos bolcheviques, ainda que sob o risco de que ela não apareça em absoluto na imprensa, pois as vacilações contra as quais considero um dever rebelar-me com toda a energia são inauditas e podem influir funestamente no partido, no movimento do proletariado internacional e na revolução. No que concerne ao perigo de chegar tarde, para combatê-lo indicarei as informações que possuo e de que data são.

Só na manhã da segunda-feira, 16 de outubro, consegui ver um camarada que havia participado na véspera de uma reunião bolchevique muito importante em Petrogrado e que me informou detalhadamente sobre os debates [1]. Discutiu-se o mesmo problema da insurreição de que tratam os jornais de domingo de todas as tendências. Na reunião estiveram representadas as mais influentes áreas de atividade bolchevique na capital. E só uma minoria muito insignificante da reunião – mais precisamente, só dois camaradas – adotou uma posição negativa. Os argumentos que esses camaradas esgrimiram são tão frágeis, são uma manifestação tão assombrosa de desorientação, de acovardamento e de rompimento com todas as ideias fundamentais do bolchevismo e do internacionalismo proletário, revolucionário, que não é fácil encontrar uma explicação para vacilações tão vergonhosas. Que as linhas seguintes sejam uma tentativa de cumprir esta tarefa.

… Não temos a maioria no povo; sem esta condição a insurreição está condenada …”

Homens capazes de dizer isto são uns falsificadores da verdade ou uns pedantes, que desejam a todo custo, sem tomar minimamente em consideração a situação real da revolução, receber antecipadamente garantias de que o Partido Bolchevique obterá em todo o país exatamente a metade dos votos mais um. A história jamais deu tais garantias a nenhuma revolução, nem pode em absoluto dar. Apresentar essa demanda significa zombar dos ouvintes e encobrir a própria fuga da realidade.

Isso porque a realidade nos mostra claramente que, precisamente depois das jornadas de julho, a maioria do povo começou a tomar posição ao lado dos bolcheviques. Assim demonstraram as eleições de 20 de agosto em Petrogrado, antes ainda da kornilovada, quando a porcentagem de votos obtida pelos bolcheviques se elevou de 20% para 33% na cidade (sem os subúrbios) e, depois, as eleições de setembro para as dumas distritais de Moscou, quando a porcentagem de votos emitidos a favor dos bolcheviques subiu de 11% para 49,3% (um camarada moscovita com quem tive uma entrevista há alguns dias me comunicou a cifra exata: 51%). Assim demonstraram as novas eleições para os sovietes. Assim demonstrou o fato de que a maioria dos sovietes camponeses, a despeito de seu soviete central “aksentievista”, tenha se pronunciado contrário à coalizão. Estar contra a coalizão significa, de fato, marchar com os bolcheviques. Além disso, as informações que chegam do front mostram cada dia com maior clareza que a massa de soldados, apesar dos maléficos ataques e calúnias dos líderes socialistas revolucionários e mencheviques, dos oficiais, deputados, etc., etc., se soma com crescente decisão aos bolcheviques.

Por último, o fato mais importante da vida atual na Rússia é a insurreição camponesa. Eis aí a passagem objetiva do povo para o lado dos bolcheviques, demonstrada não com palavras, mas com fatos. Porque, por mais que mintam a imprensa burguesa e os miseráveis porta-vozes com que conta entre os “vacilantes” de Novaia Jizn e cia., gritando sobre os pogroms e a anarquia, o fato é patente. O movimento dos camponeses da província de Tambov [2] foi uma insurreição no sentido físico e político, uma insurreição que teve resultados políticos tão excelentes como, primeiro, a concordância em entregar as terras aos camponeses. Não em vão toda a corja socialista revolucionária, incluindo Dielo Naroda, vocifera hoje, assustada com a insurreição, que é necessário entregar a terra aos camponeses! Aí estão, demonstrados na prática, a razão do bolchevismo e seu êxito. A insurreição resultou ser o único modo possível de “ensinar” os bonapartistas e seus lacaios do Pré-Parlamento.

Isto é um fato. Os fatos são teimosos. E este “argumento” com fatos em prol da insurreição é mil vezes mais forte do que os subterfúgios “pessimistas” de um político desorientado e atemorizado.

Se a insurreição camponesa não tivesse sido um acontecimento de importância nacional, os lacaios socialistas revolucionários do Pré-Parlamento não falariam em altos brados na necessidade de entregar a terra aos camponeses.

Outra excelente consequência política e revolucionária da insurreição camponesa, já destacada em Rabotchi Put, é o transporte de cereais às estações ferroviárias da região de Tambov. Aí têm vocês, senhores desorientados, mais um “argumento”, um argumento a favor da insurreição como único meio de salvar o país da fome e da crise, de proporções nunca vistas, que já estão batendo à porta. Enquanto os socialistas revolucionários e mencheviques, traidores do povo, resmungam, ameaçam, escrevem resoluções e prometem dar de comer aos famintos com a convocação da Assembleia Constituinte, o povo empreenderá ao estilo bolchevique a solução do problema do pão mediante a insurreição contra os proprietários de terras, os capitalistas e os especuladores.

E os magníficos frutos desta solução (única real) do problema do pão tiveram de ser reconhecidos pela imprensa burguesa, até por Russkaia Volia, que publicou a notícia de que as estações ferroviárias da região de Tambov estão cheias de cereais… Depois de os camponeses se haverem insurrecionado!!

Não, duvidar agora que a maioria do povo segue e seguirá os bolcheviques significa vacilar vergonhosamente e, de fato, jogar fora todos os princípios revolucionários proletários, renunciar por completo ao bolchevismo.

Não somos suficientemente fortes para tomar o poder, e a burguesia não é suficientemente forte para frustrar a Assembleia Constituinte …”

A primeira parte deste argumento é uma simples repetição do precedente. Não ganha nem em força nem em capacidade de persuasão pelo fato de os autores expressarem sua desorientação e seu temor à burguesia através do pessimismo com relação aos operários e do otimismo com relação à burguesia. Se os oficiais democratas constitucionalistas e os cossacos dizem que lutarão contra os bolcheviques até o fim, isso é digno do maior crédito; mas se os operários e os soldados manifestam em centenas de reuniões sua plena confiança nos bolcheviques e reiteram sua disposição de defender que o poder passe aos sovietes, é “oportuno” recordar que uma coisa é votar e outra é lutar!

Está claro que, raciocinando assim, a insurreição fica “refutada”. Porém, deve-se perguntar: que diferença há entre esse “pessimismo”, singularmente orientado, singularmente dirigido, e a deserção política para o campo da burguesia?

Deem uma olhada nos fatos, recordem as milhares de declarações dos bolcheviques, “esquecidas” por nossos pessimistas. Dissemos milhares de vezes que os sovietes de deputados operários e soldados são uma força, que são a vanguarda da revolução, que podem tomar o poder. Repreendemos milhares de vezes os mencheviques e os socialistas revolucionários que pronunciam frases ocas sobre “os órgãos autorizados da democracia” e, ao mesmo tempo, temem que os sovietes se façam donos do poder.

E o que demonstrou a kornilovada? Demonstrou que os sovietes são efetivamente uma força.

E depois de a experiência dos fatos ter demonstrado isso, rejeitemos o bolchevismo, abdiquemos de nós mesmos e digamos: não somos suficientemente fortes (ainda que os bolcheviques tenham a seu lado os sovietes de ambas as capitais e a maioria dos sovietes regionais)!!! Não se trata, pois, de vacilações vergonhosas? Porque, no fundo, nossos “pessimistas” abandonam a palavra de ordem “todo o poder aos sovietes”, e temem confessá-lo.

Como se pode demonstrar que a burguesia não é suficientemente forte para frustrar a Assembleia Constituinte?

Se os sovietes carecem de força para derrubar a burguesia, isso significa que esta é suficientemente forte para frustrar a Assembleia Constituinte, pois ninguém mais pode impedir isso. É digno de um membro do partido proletário e de um revolucionário confiar nas promessas de Kerenski e cia., confiar nas resoluções do Pré-Parlamento lacaio?

A burguesia não só tem força para frustrar a Assembleia Constituinte se o governo atual não for derrubado, como pode consegui-lo também indiretamente, entregando Petrogrado aos alemães, abrindo o front, intensificando o lockout, sabotando o transporte de cereais. Está demonstrado com fatos que a burguesia já fez em parte tudo isso. Por conseguinte pode fazê-lo também por inteiro se os operários e soldados não a derrubarem.

… Os sovietes devem ser um revólver apontado para a cabeça do governo com a exigência de convocar a Assembleia Constituinte e de renunciar às revoltas kornilovistas …”

Um dos tristes pessimistas chegou a dizer isso!

Teve de chegar a dizer isso, pois renunciar à revolução é renunciar à palavra de ordem “todo o poder aos sovietes”.

Naturalmente, as palavras de ordem “não são uma coisa sagrada”, quanto a isso não cabe dúvida. Mas por que ninguém levantou o problema de mudar esta palavra de ordem (como eu fiz depois das jornadas de julho)? Por que se teme dizer isso abertamente, apesar de que desde setembro se vem discutindo no partido o problema da insurreição, inevitável daqui para diante para converter em realidade esta palavra de ordem “todo o poder aos sovietes”?

Nossos tristes pessimistas jamais poderão sair do aperto nesta questão. Renunciar à insurreição é renunciar à passagem do poder aos sovietes e “transferir” todas as esperanças e ilusões à bondosa burguesia que “prometeu” convocar a Assembleia Constituinte.

É tão difícil compreender que com o poder nas mãos dos sovietes estará assegurada a Assembleia Constituinte e estará assegurado seu êxito? Nós, os bolcheviques, dissemos isso milhares de vezes. Ninguém tentou refutá-lo uma só vez. Todo mundo reconheceu esse “tipo combinado”. Pois bem, o que significa agora, encoberta com as palavras “tipo combinado”, a negativa em entregar o poder aos sovietes, fazê-la passar de contrabando, temendo renunciar abertamente a nossa palavra de ordem? Pode-se, por acaso, encontrar expressões parlamentares para caracterizar isso?

Replicou-se com precisão ao nosso pessimista: “Um revólver sem bala?”. Se for assim, representará uma deserção descarada ao campo dos Liberdan, que declararam mil vezes que os sovietes são “um revólver” e enganaram mil vezes o povo, pois os sovietes, com a dominação dos Liberdan, foram um zero à esquerda.

Mas caso se trate de um revólver “com bala”, isso será precisamente a preparação técnica da insurreição, pois é preciso conseguir a bala e carregar o revólver e, além disso, uma bala não será o bastante.

Ou a deserção para o campo dos Liberdan e a renúncia franca à palavra de ordem “todo o poder aos sovietes”, ou a insurreição. Não há meio-termo.

… A burguesia não pode entregar Petrogrado aos alemães, ainda que Rodzianko queira, pois quem combate não são os burgueses e sim nossos heroicos marinheiros …”

Este argumento se reduz de novo ao “otimismo” sobre a burguesia, que é fatalmente manifestado, a cada passo, por aqueles que são pessimistas quanto às forças revolucionárias e à capacidade do proletariado.

São os heroicos marinheiros que combatem, mas isso não impediu dois almirantes de se esconderem antes da tomada de Sarema!!

É um fato. Os fatos são teimosos; eles demonstram que os almirantes são capazes de traições tanto quanto Kornilov. E é um fato indiscutível que o estado-maior não foi reformado e que os comandantes são kornilovistas.

Se os kornilovistas (com Kerenski à frente, pois também ele é kornilovista) querem entregar Petrogrado, podem fazê-lo de duas maneiras; na verdade, de três maneiras.

Primeiro, podem abrir o front terrestre setentrional mediante uma traição dos chefes kornilovistas.

Segundo, podem “pôr-se de acordo” sobre a liberdade de ação de toda a marinha alemã, que é mais forte que nós; podem pôr-se de acordo com os imperialistas, tanto alemães como ingleses. Além disso, “os almirantes escondidos” poderiam entregar aos alemães também os planos.

Terceiro, podem levar nossas tropas ao desespero e à impotência totais mediante os lockouts e a sabotagem do transporte de cereais.

É impossível negar qualquer um desses três caminhos. Os fatos demonstraram que o partido burguês-cossaco da Rússia já bateu nestas três portas e tentou abri-las.

Por conseguinte…? Por conseguinte, não temos direito de esperar que a burguesia estrangule a revolução.

A experiência demonstra que os “desejos” de Rodzianko não são uma bobagem. Rodzianko é um homem prático. Por trás de Rodzianko está o capital. Isto é incontestável. O capital é uma grande força enquanto o proletariado não tomar o poder. Rodzianko aplicou de corpo e alma a política do capital durante décadas.

Por conseguinte…? Por conseguinte, vacilar na questão da insurreição como único meio de salvar a revolução significa cair na pusilânime credulidade socialista revolucionária-menchevique e meio liberdaniana na burguesia, na credulidade meio “camponesa”-inconsciente, que os bolcheviques combatemos sobre todas as coisas.

Ou cruzar os braços inúteis sobre o peito descoberto e esperar, jurando “confiança” na Assembleia Constituinte, que Rodzianko e cia. entreguem Petrogrado e estrangulem a revolução ou a insurreição. Não há meio-termo.

Até mesmo a convocação da Assembleia Constituinte, tomada em separado, não muda nada, pois nenhum “constitucionalismo”, nenhuma votação, ainda que seja em uma assembleia arquissoberana, poderá vencer a fome, poderá vencer Guilherme. Tanto a convocação da Assembleia Constituinte como seu êxito dependem da passagem do poder aos sovietes; esta velha verdade bolchevique se vê confirmada pela realidade de modo cada vez mais patente e cada vez mais cruel.

… Somos mais fortes a cada dia, podemos entrar como uma forte oposição na Assembleia Constituinte; por que apostarmos tudo em uma carta?”

É o argumento de um filisteu que “leu” que a Assembleia Constituinte foi convocada e se tranquiliza credulamente, confiando na via mais legal e mais leal, na via mais constitucional.

A única coisa a se lamentar é que esperar a Assembleia Constituinte não pode resolver nem o problema da fome nem o problema da entrega de Petrogrado. Esta “ninharia” é esquecida pelos ingênuos ou desorientados, ou por aqueles que se deixaram intimidar.

A fome também não espera. A insurreição camponesa não esperou. A guerra não espera. Os almirantes escondidos não esperaram.

Ou será que a fome aceitará esperar porque nós, os bolcheviques, proclamamos a confiança na convocação da Assembleia Constituinte? Os almirantes escondidos aceitarão esperar? Os Maklakov e os Rodzianko aceitarão cessar os lockouts, a sabotagem do transporte de cereais, as confabulações secretas com os imperialistas ingleses e alemães?

Porque é a isso que levam os argumentos dos heróis das “ilusões constitucionais” e do cretinismo parlamentar. A vida real desaparece, só resta o pedaço de papel sobre a convocação da Assembleia Constituinte, só restam as eleições.

E os cegos ainda se admiram de que o povo faminto e os soldados traídos pelos generais e almirantes sintam indiferença pelas eleições! Oh, mentes ilustres!

… Se os kornilovistas começassem de novo, então lhes ensinaríamos o que é bom! Mas começarmos nós mesmos, para que se arriscar?”

Que extraordinariamente convincente e extraordinariamente revolucionário é isso! A história não se repete, mas se lhe virarmos as costas e, contemplando a primeira kornilovada, afirmarmos: “se os kornilovistas começassem…”; se fizermos isso, que excelente estratégia revolucionária! Como se parece ao jogo de espera! Talvez os kornilovistas comecem de novo em um período inoportuno! Este é um “argumento” de peso? Que tipo de fundamentação séria da política proletária é este?

Mas, e se os kornilovistas do segundo destacamento tiverem aprendido alguma coisa? E se esperarem os motins de famintos, a ruptura do front e a entrega de Petrogrado, sem começar antes? E então?

Propõe-se que baseemos a tática do partido proletário na possibilidade de que os kornilovistas repitam um de seus velhos erros!

Esqueçamos tudo o que está sendo e foi demonstrado pelos bolcheviques centenas de vezes, o que meio ano de história de nossa revolução demonstrou: que não há outra saída, que objetivamente não pode haver outra saída exceto a ditadura dos kornilovistas ou a ditadura do proletariado. Esqueçamos isso, abjuremos tudo e esperemos! Esperar o quê? Esperar um milagre: que o tempestuoso e catastrófico curso dos acontecimentos desde 20 de abril até 29 de agosto se transforme (pelo prolongamento da guerra e pelo aumento da fome) na convocação pacífica, tranquila, simples e legal da Assembleia Constituinte e no cumprimento de seus legítimos acordos. Eis aí a tática “marxista”! Esperai, famintos, Kerenski prometeu convocar a Assembleia Constituinte!

… Na situação internacional não há nada, na realidade, que nos obrigue a sairmos às ruas imediatamente; ao contrário, causaremos um prejuízo à causa da revolução socialista no Ocidente se nos deixarmos metralhar …”

Este argumento é verdadeiramente magnífico: “o próprio” Scheidemann, “o próprio” Renaudel [3] não teriam sabido “operar” mais habilmente com a simpatia que sentem os operários pelo êxito da revolução socialista internacional!

Imaginem! Os alemães, em condições diabolicamente difíceis, com um só Liebknecht (e, além disso, no presídio); sem jornais, sem liberdade de reunião, sem sovietes, com uma hostilidade incrível de todas as classes da população, incluído o último camponês acomodado, à ideia do internacionalismo; com uma formidável organização da burguesia imperialista grande, média e pequena; os alemães, isto é, os revolucionários internacionalistas alemães, os operários com casacos de marinheiros, organizaram uma sublevação na frota com 1% de probabilidade de êxito.

Nós, ao contrário, com dezenas de jornais, com liberdade de reunião, a maioria nos sovietes; nós, os internacionalistas proletários colocados nas melhores condições em todo o mundo, nos negaremos a apoiar com nossa insurreição os revolucionários alemães. Raciocinaremos como os Scheidemann e os Renaudel: o mais sensato é não se insurrecionar, pois, se nos metralham, que excelentes, que ajuizados, que ideais internacionalistas perderá o mundo!!

Demonstremos nossa sensatez. Aprovemos uma resolução de simpatia aos insurgentes alemães e rechacemos a insurreição na Rússia. Isso será internacionalismo autêntico, sensato. E com que rapidez prosperará o internacionalismo proletário se essa sábia política triunfar em todas as partes!

A guerra martirizou e torturou ao extremo os operários de todos os países. As explosões na Itália, na Alemanha e na Áustria são cada vez mais frequentes. Somos os únicos que temos os sovietes de deputados operários e soldados. Esperemos, traiamos os internacionalistas alemães da mesma maneira que traímos os camponeses russos que, não com palavras, mas com ações, com a insurreição contra os proprietários de terras, nos chamam à insurreição contra o governo de Kerenski…

Deixemos que engrossem as nuvens negras do complô imperialista de todos os países, que estão dispostos a estrangular a revolução russa: esperemos tranquilamente que nos estrangulem com o rublo! Em vez de atacar os conspiradores e atropelar suas fileiras com a vitória dos sovietes de deputados operários e soldados, esperemos a Assembleia Constituinte, na qual serão vencidos por meio de votações todos os complôs internacionais, se Kerenski e Rodzianko a convocarem honestamente. E temos direito de pôr em dúvida a honestidade de Kerenski e Rodzianko?

… Mas ‘todos’ estão contra nós! Estamos isolados: o Comitê Executivo Central, os mencheviques internacionalistas, os de Novaia Jizn, e os socialistas revolucionários de esquerda publicaram e publicarão chamamentos contra nós!”

Um argumento fortíssimo. Até agora fustigamos implacavelmente os vacilantes por suas vacilações. Com isso conquistamos a simpatia do povo. Com isso conquistamos os sovietes, sem os quais a insurreição não poderia ser firme, rápida e segura. Aproveitemos agora os sovietes conquistados para passarmos também para o campo dos vacilantes. Que belo caminho do bolchevismo!

Toda a essência da política dos Liberdan e dos Tchernov, assim como a dos socialistas revolucionários e mencheviques “esquerdistas”, consiste em vacilar. Os socialistas revolucionários de esquerda e os mencheviques internacionalistas têm imensa importância como indicação de que as massas se radicalizam. Existe um nexo irrefutável, evidente, entre dois fatos: de um lado, a passagem de cerca de 40% dos mencheviques e socialistas revolucionários para o campo dos esquerdistas; por outro, a insurreição camponesa.

Porém, é precisamente o caráter desse nexo que põe de manifesto todo o abismo de pusilanimidade de quem tem agora a ideia de choramingar porque o Comitê Executivo Central, podre em vida, ou os socialistas revolucionários de esquerda vacilantes e comparsas nos atacaram. Essas vacilações dos líderes pequeno-burgueses, dos Martov, dos Kamkov, dos Sukhanov e cia., devem ser confrontadas com a insurreição dos camponeses. Essa é uma confrontação política real. Com quem ir? Com os exíguos punhados de líderes petrogradenses vacilantes, que indiretamente expressaram a radicalização das massas e que, frente a cada virada política, choramingaram, vacilaram e correram de maneira vergonhosa a pedir perdão aos Liberdan, aos Aksentiev e cia., ou com essas massas radicalizadas?

Assim, e só assim, está colocada a questão.

Por causa da traição dos Martov, dos Kamkov e dos Sukhanov à insurreição camponesa nos é proposto que a traiamos também nós, o partido operário dos internacionalistas revolucionários. A isso se reduz a política de “invocar” os socialistas revolucionários de esquerda e os mencheviques internacionalistas.

Mas dissemos: para ajudar os vacilantes é preciso que nós mesmos deixemos de vacilar. Esses “simpáticos” democratas pequeno-burgueses vacilaram até quando haveria de se pronunciar a favor da coalizão! No final das contas, nós os levamos atrás de nós porque não vacilamos. E a vida nos deu razão.

Esses senhores afundaram sempre a revolução com suas vacilações. Só nós a salvamos. E vamos ceder agora, quando a fome bate às portas de Petrogrado e Rodzianko e cia. se dispõem a entregar a cidade?

… Mas nós não temos sequer vínculos firmes com os ferroviários e empregados dos correios. Seus representantes oficiais são os Planson [4]. E é possível triunfar sem os correios e os trens?

Sim, sim, os Planson aqui e os Liberdan acolá. Que confiança lhes expressaram as massas? Não fomos nós que demonstramos sempre que esses líderes traíam as massas? Não foi a esses líderes que as massas viraram as costas para colocar-se a nosso lado nas eleições em Moscou e nas eleições dos sovietes? Ou as massas de ferroviários e empregados dos correios não passam fome, não se declaram em greve contra o governo Kerenski e cia.?

E antes de 28 de fevereiro tínhamos vínculos com esses sindicatos?”, perguntou um camarada ao “pessimista”. Este respondeu que é impossível comparar ambas as revoluções. Mas essa pergunta não faz mais que fortalecer a posição de quem formulou a pergunta. Porque precisamente nós, os bolcheviques, falamos milhares de vezes da longa preparação da revolução proletária contra a burguesia (e não falamos isso para esquecê-lo às vésperas do momento decisivo). A vida política e econômica dos sindicatos de correios e telégrafos e de ferroviários se caracteriza precisamente pelo fato de que os elementos proletários das massas se separam dos meios dirigentes pequeno-burgueses e burgueses. Não se trata de modo algum de prover-se obrigatória e previamente de “vínculos” com um ou outro sindicato; trata-se, sim, de que só a insurreição operária e camponesa pode satisfazer as massas de ferroviários e empregados de correios e telégrafos.

… Em Petrogrado há pão para dois ou três dias. Podemos dar pão aos insurgentes?”

Uma das mil observações de ceticismo (os céticos podem “duvidar” sempre e só se pode refutá-los com a experiência), dessas observações que descarregam as próprias culpas em cabeça alheia.

Precisamente os Rodzianko e cia., precisamente a burguesia, preparam a fome e especulam para estrangular a revolução com a fome. Não há nem pode haver outra salvação da fome exceto a insurreição dos camponeses contra os proprietários de terras nas aldeias e a vitória dos operários sobre os capitalistas nas cidades e nos grandes centros. De outro modo será impossível arrancar o grão dos ricos, transportá-lo apesar da sabotagem, romper a resistência dos empregados subornados e dos capitalistas que lucram e estabelecer uma contabilidade rigorosa. Isso foi demonstrado pela história das instituições de fornecimento e das dificuldades de abastecimento da “democracia”, com seus milhões de queixas contra a sabotagem dos capitalistas, seus choramingos e súplicas.

Não há nenhuma força no mundo, exceto a força da revolução proletária vitoriosa, que permita passar das queixas, dos rogos e das lágrimas à obra revolucionária. E quanto mais demore a revolução proletária e seja adiada pelos acontecimentos ou vacilações dos hesitantes e desorientados, tanto mais difícil será organizar o transporte e a distribuição de cereais. A demora na insurreição equivale à morte: isso é o que se deve responder àqueles que têm a triste “valentia” de contemplar o crescimento da ruína, a proximidade da fome e de desaconselhar a insurreição aos operários (quer dizer, aconselhar-lhes que esperem, que confiem ainda na burguesia).

Ainda não há perigo no front. Até se os próprios soldados acertarem um armistício, isso não será ainda uma desgraça …

Mas os soldados não acertarão o armistício. Para isso faz falta o poder do Estado, que é impossível obter sem a insurreição. Os soldados simplesmente fugirão. Isso dizem os informes do front. Não se pode esperar sem correr o risco de ajudar a confabulação de Rodzianko com Guilherme e de contribuir para a ruína completa, para a fuga geral dos soldados, se estes (já próximos da desesperação) chegarem ao desespero completo e abandonarem tudo à sua própria sorte.

… E se tomarmos o poder e não conseguirmos nem o armistício nem uma paz democrática, os soldados poderão se negar a ir a uma guerra revolucionária. O que acontecerá então?

Um argumento que obriga a recordar uma sentença: um idiota pode fazer dez vezes mais perguntas do que dez sábios são capazes de responder.

Jamais negamos as dificuldades do poder durante a guerra imperialista; mas, não obstante, pregamos sempre a ditadura do proletariado e dos camponeses pobres. Vamos renunciar a isto quando é chegado o momento da ação?

Sempre dissemos que a ditadura do proletariado em um só país origina mudanças gigantescas na situação internacional, na economia do país, na situação do exército e em seu estado de ânimo. E vamos “esquecer” tudo isso agora, deixando-nos intimidar pelas “dificuldades” da revolução??

Como todos relatam, entre as massas não existe o estado de ânimo para sair às ruas. Entre os sintomas que justificam o pessimismo figura também a difusão, aumentada ao extremo, da imprensa pogromista e ultrarreacionária …

Como é natural, quando os homens se deixam amedrontar pela burguesia todos os objetos e fenômenos aparecem para eles com a cor amarela. Em primeiro lugar, substituem o critério marxista do movimento pelo critério impressionista-intelectual; em vez de considerar politicamente o desenvolvimento da luta de classes e o curso dos acontecimentos no conjunto do país e na situação internacional em seu todo, adiantam as impressões subjetivas sobre o estado de ânimo, esquecem “de propósito”, naturalmente, que a firme linha do partido, sua decisão inquebrantável, é também um fator do estado de ânimo, sobretudo nos momentos revolucionários mais agudos. Às vezes as pessoas esquecem muito “propositalmente” que os dirigentes responsáveis, com suas vacilações e sua inclinação a queimar tudo o que ontem veneravam, introduzem as vacilações mais indecorosas também no estado de ânimo de certos setores das massas.

Em segundo lugar – e isto é o principal no momento presente –, os pusilânimes, ao falar do estado de ânimo das massas, esquecem de agregar:

que “todos” o caracterizam como tenso e expectante;

que “todos” concordam em que, respondendo ao chamamento dos sovietes, os operários
atuarão como um só homem;

que “todos” concordam em que existe um forte descontentamento entre os operários pela indecisão dos organismos centrais quanto ao problema “do combate final e decisivo”, cuja inevitabilidade se vê com clareza;

que “todos” definem de maneira unânime o estado de ânimo das mais vastas massas como à beira do desespero e assinalam o crescimento do anarquismo precisamente sobre esta base;

que “todos” reconhecem também que entre os operários conscientes existe certa falta de desejo de sair às ruas para manifestações, para lutas parciais, pois está no ar a proximidade de um combate não parcial, e sim geral, e a falta de sentido das greves, manifestações e pressões isoladas foi já provada e compreendida por completo.

E assim sucessivamente.

Se enfocarmos esta característica do estado de ânimo das massas do ponto de vista de todo o desenvolvimento da luta de classes e política e de todo o curso dos acontecimentos durante meio ano da nossa revolução, estará claro para nós como falseiam as coisas os homens amedrontados pela burguesia. As coisas são hoje completamente distintas do que eram antes de 20 e 21 de abril, de 9 de junho e de 3 de julho, pois então se tratava de uma excitação espontânea que nós, como partido, ou não captamos (20 de abril) ou refreamos e lhe demos forma de manifestação pacífica (9 de junho e 3 de julho). Porque então sabíamos muito bem que os sovietes não eram ainda nossos: que os camponeses confiavam ainda no caminho dos Liberdan e dos Tchernov e não no dos bolcheviques (a insurreição); que, por conseguinte, a maioria do povo não podia nos seguir; que, por conseguinte, a insurreição era prematura.

Então, a maioria dos operários conscientes não se havia colocado de modo algum o problema do combate final e decisivo; não houve um só entre os organismos colegiados do partido em geral que levantasse esse problema. E entre a massa pouco consciente e muito ampla não havia nem esforço concentrado nem decisão nascida do desespero, mas apenas excitação espontânea e a ingênua esperança de “influir” sobre os Kerenski e sobre a burguesia com uma simples “ação”, com uma simples manifestação.

O que falta para a insurreição não é isso, e sim a decisão consciente, firme e inflexível dos homens com consciência de classe de ir até o fim. Isto, por um lado. E, por outro, é necessário um estado de tensão e desespero das grandes massas, as quais sentem que hoje não se pode salvar nada com meias medidas, que não se pode “influir” em ninguém, que os famintos “destruirão tudo, arrasarão tudo, até mesmo no estilo anarquista” se os bolcheviques não souberem dirigi-los no combate decisivo.

Na realidade, o desenvolvimento da revolução conduziu, tanto os operários como os camponeses, justamente a essa conjugação da atenção concentrada dos homens conscientes, ensinada pela experiência, e do espírito de ódio, beirando o desespero, das grandes massas aos patrões que declaram lockouts e aos capitalistas.

Precisamente sobre esta base é compreensível também o “êxito” dos canalhas da imprensa ultrarreacionária que se disfarçam de bolcheviques. Sempre ocorreu que os ultrarreacionários se rejubilassem ironicamente ao ver que se aproximava o combate decisivo entre a burguesia e o proletariado. Isto se observou em todas as revoluções, sem exceção alguma, e é absolutamente inevitável. E se nos deixarmos intimidar por esta circunstância, teremos de renunciar não só à insurreição, mas também à revolução proletária em geral. Porque na sociedade capitalista é impossível um desenvolvimento desta revolução que não vá acompanhado do maligno regozijo dos ultrarreacionários e de suas esperanças de tirar proveito.

Os operários conscientes sabem muito bem que os ultrarreacionários e a burguesia atuam de comum acordo; que a vitória decisiva dos operários (na qual os pequenos burgueses não acreditam, que os capitalistas temem e os ultrarreacionários desejam, às vezes malignamente, seguros de que os bolcheviques não se sustentarão no poder), que esta vitória esmagará completamente os ultrarreacionários e que os bolcheviques saberão sustentar-se firmemente no poder, com o maiorproveito para toda a humanidade extenuada e martirizada pela guerra.

Com efeito, quem que não haja enlouquecido poderá duvidar de que os Rodzianko e os Suvorin atuam juntos e distribuíram entre si os papéis?

Os fatos não demonstraram que Kerenski atua por indicação de Rodzianko e que a “Imprensa do Estado da República da Rússia” (não é uma piada!) edita à custa do Tesouro os discursos ultrarreacionários dos ultrarreacionários da “Duma do Estado”? Não denunciaram este fato até os lacaios de Dielo Naroda, que servem a “seu próprio homenzinho”? A experiência de todas as eleições não demonstrou que Novoie Vremia, jornal venal que se guia pelos “interesses” dos tsaristas e proprietários de terras, prestou pleno apoio às candidaturas democrata constitucionalistas? [5]

Por acaso não lemos ontem que o capital comercial e industrial (sem partido, naturalmente! Oh, sem partido, é claro, pois os Vikhlaiev e os Rakitnikov, os Gvozdiev e os Nikitin não se coligam com os democratas constitucionalistas, Deus nos livre disso, e sim com os meios comerciais e industriais sem partido!) presenteou 300 mil rublos aos democratas constitucionalistas?

Caso se enfoquem as coisas de um ponto de vista classista, e não sentimental, toda a imprensa ultrarreacionária é uma sucursal da casa Riabuchinski, Miliukov e cia. O capital compra, por um lado, os Miliukov, os Zaslavski, os Potressov, etc., e, por outro, os ultrarreacionários.

Para pôr fim a este repugnante envenenamento do povo com a vulgar peçonha ultrarreacionária não pode haver mais que um meio: a vitória do proletariado.

E pode surpreender que a multidão, extenuada e martirizada pela fome e pelo prolongamento da guerra, “se agarre ao veneno ultrarreacionário? É possível imaginar a sociedade capitalista às vésperas da bancarrota sem o desespero das massas? É possível imaginar que este desespero das massas, entre as quais abunda a ignorância, não se manifeste no aumento da venda de venenos de todo tipo?”

Não, está condenada ao fracasso a posição daqueles que, ao falarem do estado de ânimo das massas, atribuem a estas sua própria pusilanimidade pessoal. As massas se dividem entre pessoas que esperam conscientemente e pessoas dispostas inconscientemente a cair no desespero; mas as massas de oprimidos e famintos não são pusilânimes.

… Por outro lado, o partido marxista não pode reduzir o problema da insurreição a uma conspiração militar …

O marxismo é uma doutrina extraordinariamente profunda e multifacetada. Não é estranho, por isso, que entre os “argumentos” daqueles que rompem com o marxismo se possam encontrar sempre fragmentos de citações de Marx, sobretudo se se reproduzirem citações inoportunamente. A conspiração militar é blanquismo se não for organizada pelo partido de uma classe determinada; se seus organizadores não tiverem em conta o momento político em geral e a situação internacional em particular; se esse partido não contar com a simpatia da maioria do povo, demonstrada com fatos objetivos; se o desenvolvimento dos acontecimentos da revolução não conduzir à refutação na prática das ilusões conciliadoras da pequena burguesia; se não se conquistar a maioria dos órgãos de luta revolucionária considerados “autorizados” ou que tenham mostrado de outra forma do que são capazes, como os sovietes; se no exército (quando as coisas ocorrerem durante uma guerra) não amadurecer por completo a hostilidade ao governo que prolonga a guerra injusta contra a vontade do povo; se as palavras de ordem da insurreição (por exemplo, “todo o poder aos sovietes”, “a terra para os camponeses”, “proposição imediata de uma paz democrática a todos os povos beligerantes, vinculada à anulação imediata dos tratados secretos e da diplomacia secreta”, etc.) não alcançarem a mais ampla publicidade e popularidade; se os operários avançados não estiverem seguros da situação desesperada das massas nem do apoio do campo, apoio demonstrado com um sério movimento camponês ou com uma insurreição contra os proprietários de terras e contra o governo que os defende; se a situação econômica do país despertar sérias esperanças de uma solução favorável da crise por meios pacíficos e parlamentares.

Basta, talvez?

No meu folheto Poderão os bolcheviques manter-se no poder? (tenho esperança de que virá à luz em dias próximos) reproduzi uma citação de Marx relacionada de verdade com o problema da insurreição e que define as regras da insurreição como “uma arte”.

Estou disposto a apostar que, caso se convidar os charlatães que gritam agora na Rússia contra a conspiração militar a explicar a diferença entre a “arte” da insurreição armada e a conspiração militar, digna de ser condenada, ou repetirão o dito acima ou se cobrirão de vergonha e provocarão o riso geral dos operários. Experimentem fazê-lo, amáveis também-marxistas! Cantem-nos a canção contra “a conspiração militar”!

Pós-escrito

Escritas já as linhas precedentes, recebi na terça-feira, às oito da noite, os jornais petrogradenses da manhã, com o artigo do senhor V. Bazarov em Novaia Jizn. O senhor V. Bazarov afirma que “pela cidade se distribui, escrita a mão, uma folha que, em nome de dois destacados bolcheviques, se pronuncia contra a ação”.

Se isto for correto, rogo aos camaradas, a cujas mãos esta carta não pode chegar antes do meio-dia da quarta-feira, que a publiquem com a maior rapidez possível.

Não foi escrita para a imprensa, mas para conversar por correspondência com os membros do partido. Mas se os heróis de Novaia Jizn, não pertencentes ao partido e mil vezes ridicularizados por ele em razão de sua desprezível pusilanimidade (anteontem votaram a favor dos bolcheviques; ontem, a favor dos mencheviques, e quase os unificaram no mundialmente famoso Congresso da Unificação); se semelhantes sujeitos recebem uma folha de membros do nosso partido que fazem agitação contra a insurreição, então é impossível guardar silêncio. Há de se fazer agitação também a favor da insurreição. Que os anônimos saiam definitivamente à luz do dia e recebam o castigo merecido por suas vergonhosas vacilações, ainda que seja somente na forma de chacotas de todos os operários conscientes. Disponho unicamente de uma hora antes de enviar esta carta a Petrogrado e, por isso, assinalarei em somente duas palavras um “método” dos tristes heróis da acéfala tendência de Novaia Jizn. O senhor Bazarov tenta polemizar com o camarada Riazanov, o qual disse – e tem mil vezes razão – que “a insurreição é preparada por todos aqueles que criam nas massas um espírito de desespero e indiferentismo”.

O triste herói da triste causa “objeta”: “O desespero e o indiferentismo triunfaram alguma vez?”.

Oh, desprezíveis idiotas de Novaia Jizn! Conhecem exemplos tais de insurreições na história em que as massas das classes oprimidas venceram em um combate de vida ou morte sem terem sido levadas ao desespero por longos sofrimentos e por um agravamento extremo das crises de todo gênero? Em que essas massas não tenham sentido indiferença pelos diversos pré-parlamentos lacaios, pela frivolidade com a revolução, pelo rebaixamento dos sovietes (à mercê dos Liberdan) de órgãos de poder e de insurreição ao papel de salões de tagarelas?

Ou será que os desprezíveis idiotas de Novaia Jizn descobriram entre as massas indiferença… pelo problema do pão? Do prolongamento da guerra? Da terra para os camponeses?

N. Lênin

Notas:

[1] Referência à reunião do Comitê Central ampliado em 16 (29) de outubro de 1917. Lenin permaneceu escondido em Petrogrado e mudou a data da reunião de 15 (28) de outubro para ocultar sua presença na reunião; por razões de segredo ele recorreu a um camarada que supostamente o teria informado da reunião.

[2] O movimento camponês de Tambov, em setembro de 1917, assumiu grandes proporções: os camponeses capturaram áreas de latifúndios, destruíram e queimaram mansões de latifundiários e confiscaram estoques de grãos. Em setembro, 82 propriedades/latifúndios foram destruídos em 68 províncias e regiões, incluindo 32 na província de Tambov. No total, existe um registro de 166 manifestações camponesas na província, especialmente em Kozlov Uiezd. Os latifundiários amedrontados levaram seus grãos para as estações de trem numa tentativa de vendê-los; assim, os entroncamentos ficaram literalmente inundados de grãos. O comandante do distrito militar de Moscou enviou unidades militares para a província de Tambov para esmagar o levante camponês, e impôs uma lei marcial, mas a luta revolucionária pela terra continuou a crescer.

[3] Philip Scheidemann (1865-1939): líder da direita da socialdemocracia alemã. Pierre Renaudel (1917-1935): líder reformista do Partido Socialista Francês.

[4] A. A. Planson: socialista popular e membro do Comitê Executivo Central (primeira convocação). Foi o líder de Vikzhel, o Comitê Executivo de Toda a Rússia do Sindicato de Ferroviários (uma organização administrada pelos conciliadores).

[5] Novoie Vremia [Novos Tempos]: jornal diário publicado em Petersburgo de 1868 a 1917, por vários editores. Mudou de posição diversas vezes, e a partir de 1905 se tornou um órgão das centúrias negras. Depois da revolução democrático-burguesa de fevereiro de 1917, ele assumiu uma postura contrarrevolucionária e conduziu uma campanha radical contra os bolcheviques. Foi fechado pelo Comitê Revolucionário Militar do Soviete de Petrogrado em 26 de outubro (8 de novembro) de 1917.

In: “Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917”. Org: Slavoj Žižek. São Paulo, Editora Boitempo, 2005.

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